sábado, 31 de outubro de 2009


Sempre tive problemas com a palavra tolerar, na verdade tenho aversão a ela! A palavra Tolerância me remete à mesma etimologia da palavra aguentar, portanto, tolerar tem o sentido de suportar, o que, de modo algum parece adequado ao convívio humano. Se tolero alguém, não o respeito, apenas o aguento, suporto-o, enquanto me for conveniente ou pelo tempo que eu resistir. Talvez daí venha o pouco ou nenhum respeito à fé, ou falta dela, de cada um, talvez venha daí o fato de não sabermos conviver pacificamente com o diferente, com aquele que não é como eu, que vive com outros valores, com outros parâmetros.
O caso da estudante universitária ameaçada por centenas de pessoas em São Paulo me remete à palavra tolerância. Tolero o outro enquanto me é conveniente. Quando isso, de alguma forma, me incomoda, ultrapasso o limite da boa convivência e me dou o direito de agir como bem entender. Não há como negar que foi isso que a turba formada na universidade fez. Para quem não sabe, a moça foi com um vestido tido como inconveniente ou ofensivo à moral e aos bons costumes dos puristas. Não sou purista, nem puritano, também não vim ao mundo para julgar ninguém, muitos menos sou candidato a santo. Já fiz muitos comentários maldosos sobre roupas alheias e sei que também devo ter sofrido com diversos comentários. Comentar, criticar, até mesmo criar pequenas piadas entre amigos, por mais errado que seja, faz parte da alma humana, quando isso passa para a agressão, para a violência, começa um problema.
A moça em questão foi com um vestido considerado curto demais para frequentar o ambiente acadêmico. Foi barrada na entrada da faculdade? Não! Algum professor pediu para que se retirasse e vestisse algo mais adequado? Não! O que se viu foi uma monstruosidade.
Professores e alunos aumentando um burburinho, criando uma rede de ódio e violência que culminou com o encurralamento da moça em uma das salas de aula da faculdade. Do lado de fora, algo em torno de setecentas pessoas, iradas, agressivas, tentando algo. Que algo? O que fariam se porta fosse aberta? Linchariam a moça, arrancariam seu vestido e a deixariam apenas em trajes sumários? Agrediriam? Alguém teria a idéia brilhante de estuprá-la para mostrar que ela era culpada?
Li alguns relatos de estudantes da dita faculdade que disseram que mais parecia um culto de intolerância religiosa, como se ninguém nunca tivesse usado roupas mínimas e outras moças da mesma faculdade não fossem com roupas tão ou mais ousadas. Note-se que estamos falando de uma instituição que deveria formar advogados, engenheiros, administradores, professores, médicos, psicólogos que ajudem o outro, que façam do mundo um lugar melhor, mas qual o quê? Que trabalho com o ser humano deve ser feito em um local como este? Forma-se profissionais de alto nível, doutos, acadêmicos, competentes profissionalmente, mas e os seres humanos? E os cidadãos?
Não, isso não é função das academias, não é função das escolas, formar cidadãos é bonito escrito nos projetos políticos pedagógicos, é bonito escrito nas missões, mas na prática ninguém está preocupado com isso, afinal temos que ensinar o conteúdo, o currículo tem que ser cumprido!
Lembro-me do personagem de Robin Willians em Sociedade dos Poetas Mortos, de Kevin Kline em Clube do Imperador e, sobretudo, de Sidney Poitier em Ao Mestre com Carinho e Morgan Freeman em Meu Mestre Minha Vida, professores que mais do que conteúdos, ensinavam vida aos seus alunos, que mais do que um profissional sabiam ensinar seus alunos a serem...humanos...
Para Denise, que sonha por um mundo melhor comigo
Give me the horizon

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Há momentos especiais na vida da gente que não precisam de muitas palavras nem maiores explicações. Na verdade explicações tornam-se sempre desnecessárias quando entendemos a magia da vida, a beleza do universo e o encanto de cada dia.
Vivemos muito acelerados, vivemos de uma maneira errada, preocupados demais com o trabalho, com pouco tempo para curtir a família, os lugares e situações pelos quais passamos e vivemos. Outro dia minha musa percebeu que estávamos ouvindo pouca música, simplesmente havíamos deixado de ouvir música, sem nenhum motivo aparente. A música sempre teve um papel importante na vida da humanidade, desenvolve a sensibilidade, faz com que paremos para nos encantar com sons e notas. Voltamos a ouvir muita música, não importa o gênero desde que seja boa, como já bem disse o grande Tião Carreiro.
Nesse momento especial que estamos vivendo, da aquisição de uma chácara, percebemos que nossa vida mudará para muito melhor, pois nosso ritmo será outro, embora ainda presos a horários e ao mundo “concrético” de uma Brasília cheia de vida e trabalho, moraremos em um núcleo rural, ilha de tranquilidade e de ritmo diferente. Espero cultivar mais isso, espero cultivar essa paz e realmente renascer nesse lugar maravilhoso.
Costumo dizer que estamos fixando as raízes de nossa árvore em Brasília para que nossos galhos alcancem o céu e espalhem nossas folhas e frutos pelo universo. A vida é simples, complicamos tudo, demais, agora quero simplificar, quero simplesmente deixar a vida fluir, me envolver com a beleza do universo, agradecer Pachamama e o Grande Espírito pela beleza de estar vivo e de ser tocado pelo seu carinho, quero caminhar pelo jardim descalço, quero beber suco das frutas que colherei, quero não pensar em nada, apenas contemplar a vida que passa, quero namorar eternamente com minha Iara de olhos verdes, quero mergulhar na alegria de sermos simples e de viver na simplicidade calma da natureza.
Quero ser mais natural e menos preocupado, quero ser menos ocupado e deixar a vida me levar na sua naturalidade, conversar mais com meu mestre vento e entender, definitivamente, que não precisamos de explicações, que não há verdades, que é melhor ser alegre que ser triste, a tristeza não existe quando estamos do lado de quem amamos, quando acreditamos que tudo é possível e que só depende da gente.
Quero receber mais os amigos e sair menos. Quero celebrar a vida com intensidade e viver a verdade simples de que viemos aqui para amar e ser felizes, para não sermos mestres e sim, aprendizes, quero sonhar e realizar mais e ajudar o mundo a ser um lugar melhor, cada vez melhor, pois esse é meu jeito de agradecer tudo que recebo deste grande tecelão de milagres que é o universo.
Para Denise, minha musa, que constrói, a cada dia, uma vida melhor
Give me the horizon

terça-feira, 22 de setembro de 2009


Já escrevi isso em alguns outros textos e contei a amigos não sei quantas vezes. Nos idos de 1977, eu era um aspirante a fedelho que saía correndo, muitas vezes, literalmente, da escola para ver, diariamente, o Sítio do Pica-Pau Amarelo, em sua versão mais antiga. Mal entrava em casa, mala para um lado, roupa jogada para o outro, sentava para ver cada capítulo com a delícia dos olhos infantis e a imaginação solta.
Os tempos eram outros, havia menos violência, principalmente em cidades menores do litoral paulista, como São Vicente, era-se permitido crianças brincando soltas e caminhando pelas ruas e calçadas da cidade e a TV, ainda engatinhante, possuía vários, bons, programas para as crianças.
O Sítio era um deles. Lembro com carinho de vários capítulos, das músicas, das aventuras que eu reproduzia com os amigos na escola ou no pátio de meu prédio. Havia personagens impagáveis, mas de todos, certamente, embora não o meu preferido, era a Emília. Além de impagável, era petulante, revolucionária, instigante, fazendo nossas “cacholas” funcionarem. A primeira atriz por trás da personagem chamava-se Dirce Migliacio, bem pouco tempo depois ela produziria outra impagável personagem em “O Bem Amado”, a irmã mais baixinha e espevitada das irmãs Cajazeiras, o texto mais adulto e político de Dias Gomes, era meio inteligível para uma criança, fui entendê-lo já adolescente, vendo reprises ou o seriado que a Globo resolveu fazer baseado na novela. Outro personagem impagável que acompanhei foi a Dona Conceição em “ A Gata Comeu” em um dueto maravilhoso com o, também já falecido, Luiz Carlos Arutin, que fazia o Seu Oscar, um galanteador inveterado e explorador da mulher.
Acho que foi Rubens Ewald Filho que disse que a magia da TV e do cinema está justamente em tornar as pessoas eternas, em não deixá-las morrer nem envelhecer.
No dia em que essa atriz que povoou meus dias de infância e adolescência e que me trouxe tanta alegria faleceu, esse é um alento que me deixa feliz. Eram dias em que as bundas não abundavam na TV, em que as crianças eram tratadas como crianças e não como consumidores em potencial, em que o sexo era gostoso porque era feito escondidinho e não esfregado na nossa cara, em que grandes nomes de nossa MPB eram ouvidos pelas crianças que, hoje, por sinal, são adultos com bom gosto musical, em sua maioria.
Tempos que são eternos em imagens, em sentimentos e sentidos, que deixaram marcas em minha formação como pessoa. Tempos em que ler e ver textos de Monteiro Lobato não era uma atividade chata da escola, nem uma leitura obrigatória, era um momento de exercitar a imaginação, de brincar com a criatividade, de usar o pó de pirlimpimpim para viajar para outros mundos, de bodoque em punho, enfrentando Cucas e Sacis com a sabedoria de um preto velho e o carinho da natureza.
Da turma original, Dona Benta, Tia Anastácia, Tio Barnabé e Visconde de Sabugosa já estão lá no céu do Sítio, convivendo e trocando histórias com o próprio Monteiro Lobato, agora chega a Emília para bagunçar tudo e agitar as nuvens.
Hoje vou dormir olhando para o céu, com certeza ele estará bem mais divertido e colorido...

Para Denise que lembra de episódios do Sítio
Give me the horizon

quarta-feira, 9 de setembro de 2009


Tenho pensado sobre a morte. Assim, sem maiores dramas. Não, caro amigo leitor, não estou doente, nem pensando em me matar, não estou depressivo nem olhando para uma arma, gosto demais da vida para abdicar dela, por isso tenho pensado tanto na morte.
Estudando nossas comunidades ancestrais, mais especificamente as indígenas, vejo que o medo da morte foi nos trazido pelo invasor e sua religião, ou seja, pelo branco europeu e o catolicismo medieval. Fincou raiz e nos apavora até hoje. Para as comunidades indígenas, morrer faz parte do ritual de viver, morrer significa também renascer, não à toa, Maias e Incas recorriam a sacrifícios para manter a vida e Astecas sacrificavam não apenas prisioneiros, mas heróis.
Nossa sociedade tem medo da morte porque tem medo da vida, só falamos em morte quando estamos velhos demais ou quando estamos doentes terminais.
Como não sou uma coisa nem estou outra, resolvi escrever sobre minha morte.
Em primeiro lugar, não vão ao meu velório, eu não estarei lá, procurem algum boteco simpático, em que haja alegria e um bom e velho Blues. Peçam cervejas geladas e um petisquinho gostoso, peçam também uma garrafa de Jack Daniels e sorvam todos até acabar com a garrafa, lentamente, curtindo o Blues e a boa conversa, não tenham pressa, filosofem um pouco, comentem sobre literatura, não falem de trabalho, não tentem conversar sobre a verdade da existência – ela não existe – muito menos sobre trabalho. Falem bobagens, deliciosas bobagens, dessas que nos arrancam um sorriso no meio do trânsito.
Celebrem a vida e a alegria com que vivi. Não se preocupem, não precisarão acordar cedo para meu enterro, pois como não estarei em meu velório, também não irei ao meu enterro, o que vai para a terra é apenas um corpo sem serventia, mas preservem meu corpo, não quero ser cremado, pois como os Incas acredito que só devemos ser cremados quando não quisermos reencarnar mais, como não aprendi tudo ainda e gosto demais da vida, pretendo reencarnar muitas vezes e, quem sabe um dia, tornar-me sábio.
Permaneçam, então, no boteco, celebrando, cantando, rindo, algumas lágrimas eu permitirei, mas não muitas. Cantem Vinicius de Moraes, recitem poemas rebeldes, vociferem Paulo Leminski, declamem o amor por uma flor...
Cantem meu amor pela minha amada Denise, minha Iara de olhos verdes, a mulher da minha vida, prometida para mim em algum momento entre a criação do universo e sua realização, que demorei a encontrar, mas de quem jamais irei me afastar, aos meus filhos que ainda não nasceram, mas que, como morrerei bem velhinho, já estarão adultos, toquem o hino do São Paulo e se lembrem de minha alegria, peçam muitas rodadas de brejecas e amem as pessoas amadas.
Não se esqueçam de pedir uma bela e apetitosa porção de calabresa frita e uma generosa porção de salaminho, tomem mais doses de Jack, do bom e velho Jack, uivem para a lua, sem medo nem pudor, dancem por sobre as mesas ouvindo o cantar de meu mestre vento, ventem com o vento e chovam com a chuva, agradeçam ao Grande Espírito pela beleza da vida e à Pachamama pela própria vida, quando cansarem disso tudo e acharem que for hora, vão ao local em que eu estiver enterrado e coloquem flores delicadas, também coloquem uma placa com os dizeres: Aqui jaz, muito a contra-gosto, Fabim Martins, amou sua amada, celebrou a vida, sonhou e realizou, agora passeia por outros lugares, esperando o momento de retornar e novamente, amar...
Para Denise, que não gosta dessa história de morte e me ensina a viver
Give me the horizon

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Aproveitei o feriado para colocar em dia muitas coisas, uma delas espairecer com minha musa em algum lugar da cidade. Entre transeuntes e transeantes acabamos parando em um bar que gostamos de freqüentar, o Beirute da Asa Norte, tomar uma cerveja gelada e comer alguns petiscos gostoso em meio ao calor de final de inverno de Brasília.
Eis que para nosso espanto e nossa alegria surge Tibúrcio, nosso amigo filósofo de bar que, havia tempos não víamos.
Ele logo foi se achegando, sentando e pedindo mais uma brejeca e soltando o verbo. Estava feliz da vida, expandindo os negócios, agora além de vender esperança também vendia ilusão, “pois veja então, meu querido amauta” – desde que lhe ensinei o significado da palavra ele só me chama assim, “vender esperança está me dando tanto resultado que desintendi, resolvi vender ilusão, pois vossa mercê veja, se não tenho razão, as pessoas andam desiludidas, sem alegria no olhar, não falo aqui neste local de ebriedade e de robustos folguedos, mas nos trabalho acachapante, algo enxovalhar” e solta um berro “ crise na alegria do brasileiro”, continua “veja senhora musa desse grande bardo que é o amauta amigo meu, não quero assustar ninguém, mas me interesso pela seguiloquência do ser humano que pisa e perpisa a terra de meu senhor, este ser humano ora rodibundo ora furibundo, para não dizer imundo de alma e coração, o cinza é a cor dos desiludidos, desesperançados e dos depressivos, por isso quero vender ilusão, não para vossas mercês, nobres de alma, que sorriem e iluminam o universo com bondade e amor, mas, por exemplo para aquece senhor ali.”
Nosso amigo aponta para a ponta do bar, há um rapaz, bem vestido, mas de olhar triste, bebendo solitário, dele mais que rápido aponta para uma outra mesa, uma moça, também com o olhar triste satisfaz a fome solitariamente. “Veja bem meus professorzinhos, duas almas solitárias, que poderiam estar juntas se não tivessem ensimesmadas, acabrunhadas de alma e coração, por que não se juntam? Por que tem medo de ser felizes, por que temos medo de ser felizes, foi por isso que do mundo real pulei, parei com tudo, disse quero sair e estou aqui, falo com meu padrinho JK sempre, por falar nisso, sabiam que chamo JK de padrinho porque em latim quer dizer padre, sou filho não reconhecido do JK, ele sempre me diz que vem me buscar em breve, mas que por enquanto é para eu ir humanizando essa cidade que ele inventou. Então não poderia juntar essa duas almas acinzentadas, poderia sim claro que poderia, tão certo como minha goela se rebimba de fartância quando minha boca sorve esse delicado líquido desse copo. Então agora vou vender esperança para a moça e ilusão para o moço, assim eles se encontram e ficam mais felizinhos.”
Saltou da cadeira todo alegre e foi conversar com os dois, sentando no meio das mesas e pedindo mais uma cerveja, a que ele pediu em nossa mesa já faz parte de nossa conta, fico interessado tentando ouvir a conversa, ele tenta convencer o talvez futuro casal a sentar junto e conversar, diz que cobra uma quantia, pois tem um negócio honrado vendendo ilusão e esperança. A Denise ri, mas levo a sério meu amigo, talvez em sua loucura, em seu “sarto de banda” da vida ele esteja mais sóbrio e mais sensato que nós todos, por que estamos tão afastados uns dos outros, por que compartilhamos tanto via tecnologia e quase nada entre pessoas, por que temos tanto pudor em dizer que gostamos das pessoas, que queremos estar perto, por que não temos a falta de senso de sentar na mesa de alguém desconhecido e dizer que queremos fazer amizade? Presto atenção no casal inusitadamente formado, eles começam a conversar, Tibúrcio já saltou para outra mesa, continuando seu comércio de ilusão e esperança, o casal sorri ainda timidamente, mas parecem gostar da presença um do outro...
E assim a vida sorri, surgindo em um sábado à tarde, obrigado meu amigo Tibúrcio por acreditar e me fazer acreditar na sensatez da insanidade...
Para Denise, meu amor, que acredita em um mundo melhor
Give me the horizon

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


Na minha época de faculdade de Letras fui ver uma palestra de meu querido Haroldo de Campos, um dos poetas mais importantes do Brasil, infelizmente já falecido. Na época ele ressaltou que vivíamos um período que não era pós-moderno, mas pós-utópico. Foi nesta mesma época que surgiram as passeatas estudantis pedindo o impeachment do, então presidente, Fernando Collor de Mello. Eram tempos de democracia acalorada e apaixonante. Um grande amigo que não vejo a tempos escreveu um artigo intitulado “Caras pintadas ou bundas sujas?” em que falava sobre o vazio ideológico dos caras pintadas, muitos deles indo muito mais no oba-oba que por motivos ideológicos.
Para quem não viveu essa época, o movimento cara-pintada surgiu entre os estudantes, secundaristas e universitários para pedir o afastamento do presidente devido aos inúmeros escândalos que seu governo estava envolvido. Eram adolescentes, mal saídos dos cueiros, mas empolgados, uma espécie de continuação orgulhosa e de mostra que era uma geração que fazia jus à herança do movimento das diretas-já e do movimento de redemocratização do país. Claro que eu estava lá! Fui a passeatas, pedi, protestei, bravei frases de efeito.
Hoje vejo aqueles tempos com certa melancolia. Vejo que havia uma certa inocência que foi perdida no tempo, perdida na desilusão de ver que se lutou muito para se mudar muito pouco.
Hoje vivemos um momento absurdo, tão absurdo quanto aquele do início da década de noventa. O senado federal merece ser escrito com letra minúscula, pois abusou de todos os direitos de escandalizar, ofender, humilhar a população que votou em seus dignatários. Fico pensando se ainda vivêssemos no Império Romano, quantas facadas seriam necessárias para nos livrarmos desses que nos enojam. Enojam, mas não fazemos nada para tirá-los de lá. Intelectuais, artistas, pensadores já escreveram sobre sua angústia de ver que ninguém se manifesta, que o povo não vai às ruas, que os estudantes não vão às ruas. Meu querido Affonso Romano de Sant’anna escreveu um texto lindíssimo sobre isso, apontando vários fatos.
Hoje as pessoas estão desiludidas ou envolvidas demais com esse governo que foi comprando aliados. A UNE, então órgão máximo de combate estudantil, vive hoje de dinheiro do governo e quando se reúne é para destruir escolas, se embebedar e produzir vergonha. Os próprios estudantes universitários continuam com um discurso vazio, datado, utilizam camiseta do Che, do Mao, mas sequer entendem o significado desses ícones históricos, falam da mais valia, da exploração de classes, como quem recita um poema sem sentimento.
Em relação a isso recebi inúmeros e-mails de amigos preocupados, perguntando se nossa geração, que hoje beira os quarenta, não virou exatamente o que criticava, ou nas palavras desse meu amigo, não se tornou, definitivamente, uma bando de bundas-sujas!
Permito-me otimisticamente discordar. Nossa geração desiludiu-se com a política, mas batalha, e muito, para fazer desse mundo um lugar melhor para se viver. Muitos se aliaram aos movimentos civis, criaram ou trabalham em ONGs, montaram empresar para preservar o ambiente, para ensinar as pessoas a se relacionarem melhor, a serem lúdicas e cooperativas, criaram caminhos para as pessoas procurarem a compreensão, a cultura da paz, o caminho do guerreiro sem armas. São pessoas que fazem o bem, que constroem um lugar melhor. Trabalhei e trabalho com muitas dessas pessoas, fiz parte de programas em penitenciárias, em comunidades carentes, em lugares que precisavam não de paternalismo, mas de orientação para caminhos melhores.
Talvez tenhamos nos calado, definitivamente, diante de fatos tão aterradores, os políticos podem ter nos desiludido, mas não devemos jamais nos afastar da política, jamais devemos dizer que não gostamos ou que ela nos enoja a ponto de não ligarmos, pois essa omissão pode nos custar caro...como já disse Martin Luther King, o que incomoda não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons, por isso não devemos nos calar, não devemos nos afastar, talvez não valha a pena mais fazer passeatas, mas vale sempre acreditar, vale sempre tentar mudar.
Brecht já disse que o pior analfabeto é o analfabeto político, pois aceita tudo calado e se orgulha de não gostar de política. Não nos afastemos, a desilusão não pode ser culpada da morte dos sonhos, pois aqueles que não sonham é que estão mortos e matarão muitos outros...

Para Denise que sonha sempre comigo
Give me the horizon

quarta-feira, 26 de agosto de 2009


A notícia chegou assim, de repente, como deve ser toda notícia, não chegou em linhas espiraladas, mas na voz embargada de uma amiga emocionada. Jánão mais tínhamos você, Laurinha. Já não mais fazia parte de nossa vida, tinhas partido, definitivamente e irrevogavelmente partido, partido deixando um vazio, um vazio que não pode ser preenchido por palavras, eu não tenho palavras, elas se tornam desnecessárias em certas horas, você me ensinou isso, para que palavras quando podemos dar um sorriso, um gostoso abraço, um beijo, por que complicamos tanto a vida? Se coisas mais gostosas do que palavras representam o que sentimos, para que ficamos falando incansavelmente?
Você me ensinou isso Laurinha, isso e muitas outras coisas. Você partiu quando não estávamos perto, talvez para me dar mais um presente, afinal você sabia que eu não gosto de despedidas, então foi sem se despedir, mas jamais sem dizer o quanto gostava de mim e sem ouvir o quanto eu gostava de você.
Fui seu professor por pouco tempo, tempo pouco demais para meu egoísmo, mas suficiente para meu coração aprendiz entender que você foi um anjo em nossas vidas que cumpriu sua missão e anjos são assim, depois que cumprem sua missão, depois que nos ensinam o que devemos saber, vão embora, vão fazer outras pessoas felizes e foi isso que você veio ensinar Laurinha, ensinar que devemos ser felizes, que não devemos temer ser felizes, não importam as dificuldades, não importam os obstáculos, devemos sorrir para a vida, devemos dizer sempre eu te amo para aqueles que gostamos e dizer que gostaríamos de conhecer melhor aqueles que ainda não gostamos porque não tivemos oportunidade de conhecê-los melhor, você veio me ensinar que há coisas mais importantes do que a seriedade sisuda da escola e do trabalho, que muito melhor que aprender gramática, álgebra, teoremas e dilemas, é aprender a amar, aprender a ser feliz, aprender a sorrir, e você sorriu Laurinha, sorriu e brilhou com seu sorriso, sorriu e ensinou a sorrir, sorriu com o corpo todo, com a alma inteira.
Sempre que eu lembrar de você, por mais vontade que eu tenha de chorar, como agora, por mais que as lágrimas teimem em cair e inundar meus olhos, eu vou sorrir, pois você sempre, sempre sorria, é assim que vou me lembrar e homenagear você, sorrindo e sendo uma pessoa melhor, aprendendo a ser anjo como você e procurando fazer deste mundo um lugar melhor e mais feliz...

Obrigado minha querida...
um beijo no seu coração
e que você sempre ilumine o sorriso e o coração de todos...
seu aprendiz
Professor Fábio...